PRAGMÁTICO III - Você

09:00

Foto: David Uzochukwu

Vou escrever você, Vittore. Mas, quero que tenha ciência de que serás invisível. Serás fruto puro de minha imaginação. Você se remete a realidade, entretanto nunca irá alcançá-la. A linha tênue entre a realidade e ficção é fina, mas não pode ser quebrada, és prova disso. Ninguém além de mim o conhecerá. Escreverei como você nasceu e adoeceu junto do mundo ao teu redor… Como seus cabelos loiros ficaram escuros ao passar dos anos e deixaram de tocar tua testa; como você ganhou as cicatrizes da mão e a falha da tua sobrancelha; Vittore, escreverei também como teus lábios tomaram cor avermelhada e a tua pele coloração pálida; como teus olhos tomaram tom esverdeado escuro, cor morta; e como virou um questionador de alto nível da realidade em que vive. Vittore, precisarás saber, antes de tudo, que para tornar-se um personagem fictício de minhas histórias, não poderás cometer o erro do personagem anterior. Tua fala mansa e teu jeito de andar, alterado pela tua altura e ombros largos, largos e fortes, que aguentam o peso do mundo, precisam suportar o peso de um sorriso forçado e o peso de um sorriso canalha, e sujo. Tuas qualidades precisam ainda se destacar em meio aos outros para manter o seu alto ego. E em resposta à tua crise existencial… Se você se perguntar o porquê de eu ter te escrito, irão responder sem pestanejar, és apenas um auto retrato. E nada mais.

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